Respeitar a Natureza do Cavalo e seu Direito de Usar seu instinto de auto-preservação

Com muita satisfação há oito meses tenho podido colaborar com uma coluna na bela revista da ABCCC (Cavalo Cioulo),o que tem sido uma ótima oportunidade de conversar sobre a filosofia do Horsemanship para criadores de um dos nossos Estados com maior tradição no Cavalo e onde a cultura de raiz e a vida do gaúcho se entrelaça com o cavalo na lida, na musica e no dia-a-dia.
Decidi dar sequencia no nosso site com um resumo do que já foi publicado na Revista Cavalo Crioulo e porque entendo que as milhares de pessoas que amam o Cavalo e seguem nosso site e nossa página também podem ver utilidade nesses conceitos.
O horsemanship se apóia em alguns conceitos chave.O uso do “Feeling” (capacidade de ler o cavalo e sentir o que o cavalo sente a cada momento no seu relacionamento diário conosco), alguma coisa como ver o mundo como se fosse o Cavalo. O tempo, que é sempre o do cavalo e não o do nosso relógio. Cada cavalo tem seu próprio tempo de resposta. E o “balance” que é quando solicitamos alguma coisa a eles. Nesse momento entram os conceitos de pressão e alívio, sempre destacando que o cavalo aprende quando se alivia a pressão no exato instante em que ele faz menção de responder “corretamente” o que lhe pedimos.
Na nossa vivência esses conceitos servem como balizadores do manejo, criação e do treinamento. Esse texto se deidca aos dois primeiros desses conceitos. Começo por eles porque são como separadores de campo, a partir da nossa atitude diante deles, tudo o mais segue uma ou outra direção.

Assim, bem ao espírito de uma prosa na roda de mate, começo recuperando a ideia central da filosofia chamada de “Horsemanship”: uso da nossa intuição (“feeling”) como ferramental para ler, observar, sentir o cavalo, o esforço de tentar ver o nosso trabalho com eles, do ponto de vista deles, o que faz sentido na mente do cavalo? O segundo ponto deste tripé é o tempo, cada cavalo tem o seu tempo de resposta, de reação, fuga, aceitação que nos é dada generosamente quando ele pode sentir-se seguro ao nosso lado e que pode confiar que não colocaremos sua segurança em risco; por fim o terceiro tripé é o do pedido de ação, o “balance”.
E esse tripé desta filosofia de trabalho está alicerçado no conceito que chamei separador de campos: Respeitar a Natureza do Cavalo e Reconhecer o Direito do Cavalo usar sempre seu Instinto de Preservação diante de nós.
Sei que há alguns que chegam a dizer que isso seria uma “frescura”. Mas não é.
O Cavalo na Natureza é um animal predado. Ele serve de alimento a predadores. Algumas diferenças básicas até na morfologia definem essa condição. Por exemplo, a posição dos olhos na lateral da cabeça, obliquios, e não frontais como o dos canídeos, dos felinos… e os nossos.
Isso separa os campos. Nós, por tudo que somos e fazemos, do que nos alimentamos, pela adrenalina que exalamos, com o mesmo cheiro que a dos predadores na hora do ataque, estamos classificados, na memória olfativa do Cavalo que ele traz nos genes da espécie, como uma ameaça.
Se quisermos construir algo duradouro e obter do Cavalo não uma obediência pelo medo, mas uma adesão voluntária, para que ele dê o melhor das suas forças no trabalho, nas provas, devemos criar a condição para ele fazer a melhor escolha, para o que é necessário (ou certo) ficar fácil e as respostas naturais de medo, fuga e autodefesa (que seriam erradas do nosso ponto de vista) ficarem difíceis.
É por essa razão que ao sinalizar esse caminho, que faz mais sentido na mente do Cavalo, que reforçamos sempre que o cavalo aprende no exato instante que aliviamos a pressão, cavalos na sua natureza querem conforto mental e segurança e o alivio da pressão dá essa condição natural a eles. Com essa simples compreensão, no tempo de cada individuo, eles entendem que ao nosso lado não há ameaça e risco.
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Quando ao contrário queremos mostrar quem manda, ou faça isso senão lhe acontece aquilo, (peias, chicotadas) o primeiro que conseguimos fazer é confirmar a eles que tem toda razão em sentir medo e querer fugir de perto de nós, e é isso o que todo treinador deve evitar. Queremos e aqui fazemos isso, ter o cavalo voluntariamente ao nosso lado, como parceiros para tudo, os encilhamos soltos pois ficam junto de nós todo o tempo.
É justamente por esse caminho que reabilitamos mentalmente cavalos mal tratados que incorporaram a necessidade de autodefesa, as reações naturais de morder, escoicear e manotar. É pelo conjunto desse posicionamento inicial, que comunicamos que não precisam disso quando estão com a gente.
Parece simples, mas não é tão simples, principalmente se nos deparamos com um “taura” que desde cedo precisou aprender a defender-se.
Mas, os três pilares básicos do “Horsemanship”, (observar, respeitar o tempo, saber pedir e aliviar a pressão), junto com o conceito central de respeito à natureza do Cavalo como animal de fuga, que pode exercer seu direito de autodefesa, até compreender que não precisa usá-lo quando estiver conosco, nos abrem um imenso caminho seguro e afirmativo para treinar nossos Cavalos.

Horsemanship, o bem estar do Cavalo e o aprendizado com as atitudes das pessoas

Aqui quero compartilhar algumas reflexões a partir do trabalho que realizo com Cavalos, a partir de referências como Ray Hunt, Tom e Bill Dorrance, Buck Branamann entre outros.
Sempre cito esses 4 mestres, porque não foram igualados na sua compreensão da alma, da natureza e da linguagem do Cavalo.
Só a pratica constante e o convívio com dezenas de Cavalos diferentes dia –a-dia nos permite exercitar o “feeling”, a capacidade de ler as necessidades deles a cada momento, a cada novo desafio no trabalho, a vivenciar de verdade que a chave de ouro de toda essa história é que o criador, treinador, deve esforçar-se mais e mais e sempre, para tentar ler o mundo do ponto de vista de cada Cavalo, que são únicos e irrepetiveis.
Não há como ensinar a fazer alguma abordagem com alma, em um DVD, em um livro ou apostila de técnicas, porque técnicas não servem para muita coisa, se faltar a capacidade de ler, interpretar e principalmente sentir a emoção que o cavalo sente naquele instante, principalmente quando falamos de manejo, de saúde e de escolarização.
Quando pegamos uma potra, com histórico de medo e alguma violência, de susto e fuga a cada movimento seu, e entramos com ela em um redondel e logo depois de duas, três sessões vemos ela entrar diferente, vemos ela no começo fazendo um esforço imenso para poder confiar e sentir-se segura a seu lado e pouco a pouco vemos ela superando a fuga, escolhendo a aproximação, isso de verdade não tem o que pague.
Mas, não existe fórmula pronta para nada. Quase sempre o que deu certo com um, não dá necessariamente com outros.
Ou, por exemplo, quando chega a hora de escolarizar um potro (a) de três anos, que teve uma boa história com a gente, desde o nascimento, desde o imprinting e nos deparamos com um animal mais assertivo, mais responsivo e solto, confirmamos que está fazendo sentido o que propomos.
Mas, do mesmo modo, essa criação positiva, não esgota tudo, senão seria fácil demais. E quando o potro, criado do mesmo modo, mas filho de uma égua por natureza defensiva e desconfiada, mesmo tendo sido apartado aos seis meses, e bem manejado, cresce e reage às novas situações do mesmo modo que sua mãe; será a genética com influencia no comportamento? Ou será que esse individuo demanda um tempo próprio, um tempo seu, para começar a responder? Por isso não tem formulas magicas no bom Horsemanship.
Cavalos, cada um deles, me ensinam muito, sobre si mesmos, suas histórias duras ou boas, antes de chegar aqui… curiosamente tenho atraído mais, aqueles que precisam de mais ajuda.
Mas esses cavalos, éguas, potros, me ensinam também, muito sobre seus donos, sobre caráter, índole, personalidade das pessoas que de algum permitiram, consciente ou inconscientemente, que eles tivessem passado por duras provas.
Via de regra, o cavalo não comete enganos, equívocos, ele apenas indica, comunica e pede uma nova solução para ele. Se eu for capaz de entender, interpretar, ler e responder as respostas vem claras, limpas e carregadas de energia, de felicidade.
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Tem sido assim. Cavalos não precisam provar nada, não tem ego a ser satisfeito, apenas são e isso é bom demais. Nesse particular ensinam às pessoas que é preciso trata-los de igual para igual, e se transportarmos isso para nossas relações, ensinam humildade.
Já seus donos, ex-donos, ao contrário “jogam para a torcida”…como se diz na gíria.
E com isso, ao ler e compreender um cavalo, quase que clinicamente, recebo muita informação sobre os donos, comportamentos, compromissos, vaidades, exibicionismo social, às custas do Cavalo.
Eu já escrevi um artigo (neste site), sobre o que significa a decisão de ter um cavalo. O titulo já clareia: ter um cavalo é assumir encargos de enormes responsabilidades. Tal qual um filho, que tem necessidades não materiais a serem atendidas. Resumindo: cavalos pedem donos responsáveis
e C_O_M_P_R_O_M_E_T_I_D_O_S com eles.
Assim, como troca de idéias, sem qualquer pretensão de posar como dono da verdade, vou ensaiar uma crônica e falar sobre o que os cavalos me ensinam sobre as pessoas:
– É muito gratificante ver como o Cavalo é um veiculo de superação pessoal. Donos que honram seu compromisso e vivem uma troca efetiva com seu cavalo. Aprendem, estudam, evoluem, agreguam novidades e mantém o foco no bem estar do seu equino. Vibram com cada vitória ao lado do seu Cavalo, e constroem esse caminho de crescimento juntos. Esses são os que fazem valer a pena todos os esforços.
– O mais divertido são os participativos, chova ou faça sol estão com seus animais, observam comportamentos, mostram que estão no caminho de treinar seu “feeling” pessoal, comentam, assumem tarefas, gostam de recompensar seus animais com banhos e duchas depois do trabalho, vivem o clima das cocheiras e sentem-se bem com essa possibilidade.
_ Há o dono que mantém uma “distância higiênica”do cavalo. Postura mais comum em certos esportes hípicos, o cidadão chega à pista liga para a cocheira pede que tragam o cavalo selado, ja de luva, nao tem efetivamente um contato com o Cavalo. Usa, liga ao tratador e o devolve sujo e suado.
– Há outro extremo, o dono “tatibitati” – aquele que diz amar o Cavalo, mas entende que deve relacionar-se com ele como se relaciona com um bebê mimado, coloca-se como supridor de cada vontade (desejo) que ele, dono, imagina ser do Cavalo e trata de supri-lo. Dirige-se ao Cavalo na linguagem que adultos usam para estragar suas crianças… o tatibitate… (nhém, nhém nhém, meu bebezão, fofão, gostosão, neném da mamãe…) e não de igual para igual, não esforça-se para compreender a natureza do equino e seu papel na natureza e na nossa vida, e tentar, mesmo por um instante, ver o mundo do ponto de vista do Cavalo e assim promover o bem estar e o que faz sentido na mente do Cavalo.
É cenourinha com mel, maça com torrão de açúcar, mamão e melancia, rapadura, e por ai vai. Cavalos não atendem ao mesmo código de reforço positivo que um cão. Sua natureza é de predado, e eles querem sentir-se seguros e poder confiar nas pessoas. Claro que aceitam as guloseimas, porque são saborosas, mas não correlacionam naturalmente com respostas e comportamentos. Há quem diga o contrário. Pegue então um animal agredido, xucro, de fuga à flor da pele e tente escolariza-lo desse modo. É chão, contusões, “manotaços”, coices etc. Creio mesmo que alguns “show horses”, mistificadores, são responsáveis por isso.
-Outro tipo faceiro que vez por outra aparece nos ranchos é o que faz declarações, juras de amor pelo Cavalo, “que o ama, que quer o melhor para ele”, “por isso estou trazendo ele aqui para um manejo diferente”… mas, que passam um ano e visitam o cavalo duas vezes de duas horas e duas vezes de quarenta minutos.
Amor, estranho amor, nem um de nós e menos ainda o Cavalo querem esse tipo de amor, que faz mal, abandona, não assume responsabilidade com o Cavalo e nem se dispõe a aprender com ele, melhorar sua equitação, nada. Limita-se a pagar as baias. “ Ah! eu sei que ele está bem”.. consciência fica em paz. Ora, porque investiu e comprou um cavalo então? Podia comprar uma moto, uma moto náutica, uma super bike, esses ficam lá, quase nada pedem e os atendem quando solicitados.
– Nessa linha há os que fazem um baita discurso de amor, trazem o cavalo, e além de sumir, sabem que o nosso compromisso é com o Cavalo e não com os donos, e ai param de pagar, ora por meses, ora por quase um ano, ou senão atrasam de modo contumaz todos os meses, o único compromisso que o ligava ao seu cavalo era o de pagar a pensão. Mas o Cavalo dele come todos os dias, entre 3 e 5 vezes por dia, dependendo do uso… “ aH, mas lá onde ele tá… eles amam o Cavalo” e aí ainda escrevem .. “ me mande fotos do Cavalo”…
-Há os que têm seus desafios e problemas lá fora, como todas as pessoas sem exceção, mas na sua visão, os seus problemas são os maiores, os mais difíceis e mais agudos que os dos outros. Estes deixam transparecer que o Horsemanship deve ser uma “equoterapia” para humanos e ao trazer seus diversos problemas para onde o cavalo passa a viver, se fazem de vitimas das varias situações da vida e emendam isso com um pedido do tipo… “dá para pagar menos?”… ou pago quando puder? Outro dia mesmo um cidadão disse ter seis cavalos e queria hospedá-los no Rancho. Ao saber do custo da pensão falou com muita naturalidade: – Há mas são seis, Voce tem de dar um desconto… ora, são seis bocas, seis camas, seis vezes mais escovações, mais trabalho, portanto não tem como aplicar ganho de escala nisso.
– Nessa mesma linha estão os que, além de tudo, acrescentam à sua conduta o fato de não assumirem nenhuma responsabilidade sobre tudo que aconteceu de ruim ao seu animal antes de traze-los a locais mais sérios e comprometidos. Já vi casos escabrosos, diversos, que também ensinam… pela dor. Vi égua chegar aqui pele e osso, (hj não aceitaremos mais animais assim por tudo que isso pode representar ao organismo e metabolismo do equino), com cascos podres, com síndrome de dança do urso, … dizendo apenas, olhe como ela ficou lá onde estava.. e você bem intencionado se for distraído, julga… que absurdo …isso são maus tratos…mas não da outra cocheira, e sim dele que como dono nem observava seu Cavalo. Só com o tempo descobrimos que o dito cujo havia ficado 9 meses sem pagar o local e em muitos locais, “se não pagou um mês, a comida é cortada”. A maioria dos locais toma ou vende o cavalo abandonado para quitar a divida, mas para mim é inaceitável tirar a comida do Cavalo que como sempre digo, não tem culpa do dono que tem.
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Vi também animal com 9 anos, sem poder comer porque sua boca nunca tinha tido os dentes sequer grosados, em toda a vida, eram pontas e feridas por todos os lados, na língua etc… éguas que já tinham tido cólicas e isso nunca foi devidamente dimensionado e descrito pelos proprietários, sem ter recebido qualquer vacina, com doenças neurológicas e ao nos depararmos com situações criticas temos de ouvir… “ – vocês sabem do nosso amor por ela”???
– Há o dono de cavalo que faz o tipo “não to nem ai, cavalo é para ser usado”, se não fizer o que quero, “sento-lhe o relho”, esses convivem mal, mas convivem com o cavalo. Felizmente podem aprender… mudar de atitude, melhorar em vários sentidos, graças a terem adquirido uma compreensão do que é um Cavalo, do que é ter um Cavalo, verdadeiramente. Como gostam de montar, e de fato gostam de viver momentos com seus animais, esses são difíceis no começo, mas são bem melhores de conviver que o do tipo anterior.
Felizmente, nessa jornada com o Cavalo, nas ultimas décadas, os casos mais positivos são maioria, mais fortes e que demonstram como o cavalo faz bem aos humanos .
O compromisso com o Cavalo, para mim, implica sim em reeducar, sensibilizar e promover mudanças no comportamento e na relação entre os donos de cavalos, seus animais, os profissionais que lhes atendem e o contexto de um projeto que se propõe a ser um núcleo de conhecimento sobre a Natureza do Cavalo.
Um Programa Mínimo para Proprietários
A mudança ocorre naturalmente, sem conflitos, na medida que essas pessoas entenderem:
a)O cavalo pede pessoas verdadeiras
b)O cavalo pede ações constantes em prol de seu bem estar (não só em discurso)
c)O cavalo exige compromisso e comprometimento com suas necessidades diárias desde as mais simples, baia ampla, seca e limpa, agua fresca a vontade , volumoso de qualidade e concentrado adequado às suas necessidades, passando pelas rotineiras, escovação e rasqueamento, casqueamento e ferrageamento mensal, vermifugação trimestral, grosagem de dentes anual, vacinação anual, até as mais complexas como…
d)vinculo afetivo e compreensão dos sinais que ele nos dá.
e)Uso de equipamentos profissionais de boa qualidade e e em bom estado, que custam um valor razoável, inclusive quando tem de ser reformados ou readequados.
f) Programa de treinamento, uso e trabalho de chão e montado mais de uma vez por semana. Quer ter um cavalo? Você irá montá-lo regularmente? Está disposto a conviver com ele? Se não for assim, não o tenha.

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Claro que se o seu cavalo começasse a emagrecer sem justificativa aparente, começasse a ter hábitos incomuns em comparação com outros equinos, algo teria de ser feito, e um dono responsável e consciente ao chegar onde vive seu cavalo deveria observar isso com quem ele contratou a hospedagem. Mas isso só pode ser feito se os donos comprometidos estiverem regularmente com seu Cavalo.
Portanto se é para ter um cavalo pela metade, sem compromisso, sem meios, sem possibilidade material ou pessoal ou emocional de atender esse programa mínimo, acima, NÃO TENHA UM CAVALO, eles não merecem e não precisam de donos assim.
Sem a menor pretensão de ditar regras de conduta, felizmente para a maioria das pessoas com que nos relacionamos em função do Cavalo, essa compreensão aumenta ano a ano. Para o bem do Cavalo em geral, da qualidade de vida deles e da felicidade que eles podem dar a seus donos, eles pedem isso.

Escolarizador, o primeiro mestre

A proposta deste artigo é abrir um debate comentado sobre as principais profissões do agronegócio cavalo, envolvendo aspectos práticos das responsabilidades envolvidas em cada uma, questões da rotina, os desafios da qualificação e sobretudo a necessidade de regulamentação federal de pelo menos dezoito profissionais do setor. Inauguramos com uma figura central nos haras e centros hípicos. O domador, ou Iniciador como chamamos hoje.
DOMADOR: o primeiro mestre
Poucas vezes se reconhece o importantíssimo trabalho de um profissional que não apenas coloca os movimentos naturais de um cavalo senão que o prepara para ser uma montaria segura e confiável. Uma figura imprescindível no mundo do Cavalo.
Quando alguém que desconhece o mundo do cavalo adentra pela primeira vez nele e se aproxima de um destes poderosos animais, a primeira coisa que faz é deixar uma distância prudente que lhe permita fugir, como se isso fosse necessário, dada a insegurança que pode tomar o ser humano, acostumado a ter tudo sob seu controle a um clique, quando se coloca ao lado de um ser quatro ou cinco vezes maior.
Outro fator que causa vertigem nos iniciantes é ver como os mais experientes, tratadores e treinadores manejam os eqüinos de igual para igual com muita naturalidade, como se falassem (e de fato falam) o mesmo idioma, sem qualquer traço do seu medo.
Apesar do quanto misterioso isso possa parecer, os que manejam diariamente o cavalo, fazem isso com muita naturalidade, quase inconscientemente. Cavalos são animais de fuga, já comentamos isso em alguns lugares, que eles têm medo do medo de quem se aproxima deles assim, e mais, lembre-se que o cavalo tem direito a usar seu instinto de auto – preservação, quando o Homem se aproxima. Freqüentemente assumimos ao longo da história o papel de predadores e isso está gravado em seus genes.
Mas, quase todos os cavalos que acessamos em Haras, sítios, cocheiras, Hípicas não estão em seu estado natural. Passaram quando jovens pelas mãos boas (ou não) de um iniciador (domador), seu primeiro mestre e ele guarda consigo todas as memórias daquela iniciação.
O primeiro mestre do Cavalo deveria ter realizdo um cuidadoso trabalho adequando seus movimentos, suas respostas, preparando-o para a parceria com o Homem, seja para o uso no trabalho, no esporte ou no lazer. E de fato, sem o trabalho do primeiro mestre, sem a tarefa central deste profissional não seria possível utilizar o cavalo.

INICIAÇÃO E FORMAÇÃO

Aqui, como defensores do Horsemanship ou da escolarização gentil, não usamos o termo “Doma” freqüentemente associada à submissão. Tratamos de escolarizar ou iniciar o potro. Mas, o senso comum ainda define a figura do profissional –o domador. Para nós essa atividade exige pessoas vocacionadas, que antes de qualquer coisa devem amar e compreender a natureza do cavalo. Que sejam capazes de assumir a responsabilidade pela conformação mental e psicológica do Cavalo quando sair de suas mãos e estiver com qualquer outra pessoa, iniciada ou não, adulta ou jovem.
Normalmente os iniciadores se tratam de pessoas que tiveram oportunidade de crescer com o Cavalo, de ter contato com eles desde bem jovens, ou que tenham muito tempo de trabalho como o cavalo.
O iniciador ou domador deve ter vivenciado e experimentado centenas, milhares de situações e momentos, bons e não tão bons, devem ter um conhecimento natural e orgânico do Cavalo, devem saber ler o cavalo, respeitar seu tempo e saber solicitar o que querem que o cavalo faça, sabendo o exato instante de aliviar a pressão.
Tem que ser profissionais que já sabem pela prática que não se consegue nada de definitivo ou duradouro destes animais, pela força, pela violência, que já foram capazes de conquistar a confiança do cavalo para que ele não se sinta ameaçado ao seu lado e não precise querer fugir de baixo do cavaleiro na primeira monta.
Aqui, comemoramos cada cavalo iniciado, montado depois do trabalho de base, que aceita ser encilhado solto ao nosso lado, sem querer sair de perto, que aceita a sela, a primeira embocadura, sem fugir, sem dar um pulo e rimos da falsa valentia daqueles que “se gabam” de ter ficado em cima, depois de um cavalo lutar até esgotar suas forças para tirá-lo de cima. Quanto dano à mente do cavalo esse “profissional” causou para ter do que se vangloriar.
Também dois outros ingredientes básicos completam o menu da Iniciação: a paciência e o tempo. O bom iniciador não quer submeter, mostrar quem manda, não tem que provar nada a ninguém. O bom iniciador “Lê” o cavalo, respeita seu tempo de resposta e então dá as diretivas de ação.

LISTA DE TAREFAS

O Domador de cavalos é aquele profissional que maneja o potro desde recém nascido, faz o “imprinting”, informando a ele que faz parte do seu mundo e que isso pode ser bom para ambos, e desde cedo o prepara para o contato diário e bom com o ser humano. O objetivo da doma inicial é estabelecer uma boa comunicação e confiança entre o cavaleiro e seu cavalo.
Deve ensinar o potro a ser conduzido à guia e a permanecer quieto ao seu lado para escová-lo, um momento bom, ou para que o ferrador cuide de seus pés. Aos dois anos e meio ou três, quando adolescente tem inicio o trabalho de base, com a conjunção no redondel, trabalhando livre e ou à guia longa (“ground work”) se coloca o selote de doma as rédeas auxiliares, começa o charreteamento para fazer a musculatura da nuca e a boca do potro e para que em seguida ele se acostume a ter algo sobre sua garupa.
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Também se deve acostumá-lo, sem a falsa urgência e pressa que alguns se obrigam a fazer, ao trabalho diário, montado, ao refinamento dos movimentos, dirigindo-o para a modalidade para a qual está sendo preparado. Esse trabalho bem feito pode durar até os quatro anos, quando o cavalo estará escolarizado, atendendo todos os comandos básicos, fazendo por si, sempre a escolha correta, pois terá aprendido que assim a pressão é aliviada.
Também é tarefa do profissional iniciador ou domador a reabilitação da confiança perdida por cavalos mal iniciados por outros, aqueles que tentam fugir de todo tipo de contato, os que resistem com força às solicitações, aqueles que se defendem do ser humano. Estes cavalos ressabiados são eqüinos que sofreram algum tipo de trauma e que, por causa disto, desenvolveram problemas na hora de trabalhar. Nestas situações é o domador quem se encarrega de recuperar o cavalo, de permitir que ele recupere a confiança nas pessoas.
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TIPOS DE DOMA

Pode-se resumir que tem a bem feita e a mal feita. Mas, didaticamente, podemos classificar em duas linhas básicas a abordagem da iniciação: a doma natural (sem ajudas artificiais) e a doma convencional (com ajudas artificiais). Sobre a doma natural, cabe dizer que nas últimas décadas ela tem sido utilizada cada vez mais, em função do maior conhecimento sobre a natureza, comportamento, padrões de respostas e a linguagem natural do cavalo. Nessa escola, o tempo é o do cavalo. Nessa abordagem, no redondel estão o homem e o cavalo, sem qualquer outro instrumento, equipamento ou forma de contenção. O resultado obtido é sólido e duradouro.
Sobre a doma convencional, suas respostas são mais rápidas e o cavalo pode ser montado em menos de um mês, em condições normais, por isso ainda é mais utilizada, também porque “dá menos trabalho” no sentido de que exige menos comprometimento para merecer a liderança natural do cavalo que tem menos opções de posicionamento ante o seu iniciador, ou ele escolhe colaborar ou escolhe colaborar, de um jeito ou de outro.
Por outro lado, depois do básico que é aceitar sela e cavaleiro e aprender os comandos básicos, as ajudas de pernas, etc, se abre um período de especialização para aperfeiçoar o cavalo em função da disciplina a que se dedicarão. Assim, não será a mesma coisa preparar na segunda fase um cavalo de passeio, trabalho, esporte, enduro, hipismo clássico, CCE ou outra modalidade e isso é assunto para os mestres em cada modalidade.
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INFRA-ESTRUTURA NECESSÁRIA

A infra-estrutura que necessita o trabalho de iniciação e doma é a mesma que necessitamos em qualquer haras ou hípica. Baias, redondel, lavador, piquete e pista e os equipamentos básicos, o selote de doma, a rédea longa, embocaduras leves, selas, baixeiro, rédeas e cabeçadas, cabrestos e cabos para trazê-los à guia, condições de asseio e limpeza após o trabalho, boas escovas e rasqueadeiras.
É muito útil que o primeiro mestre, o iniciador, domador, tenha conhecimentos práticos de primeiros socorros, noções de fisiologia animal, de ferrageamento, assim como conhecimento sobre o comportamento e atitude mental do cavalo.
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CUIDADOS COMPLEMENTARES

O domador, como primeiro mestre não pega o cavalo escovado do tratador e o devolve sujo e suado para só retornar no dia seguinte. Ele participa da higienização do animal, o leva ao piquete de pastejo, podendo permanecer ao lado dele parte do tempo. O domador pode também passar o trato alimentar, o concentrado, deve escová-lo e nesses momentos conversar com o cavalo, habituá-lo com sua voz calma e firme, associando sua presença a bons momentos para os dois.
Fazendo isso, o iniciador vai conhecer de perto, vai ter mais oportunidades de ler o cavalo, observar suas reações a tudo que ocorre, quando junto de outros cavalos, em sua baia, sempre seca e ventilada.

O MELHOR E O PIOR

A profissão exige empenho, dedicação e amor de fato pelos animais. Devem ter perfil calmo e centrado, serem pessoas bem resolvidas, sem necessidades de provar nada a si mesmos ou aos outros, deve ter orgulho de entregar potros e cavalos bem confiáveis e serenos, prontos para todas as pessoas, independente do nível de equitação, cavalos calmos e colaboradores. Quando um criador, um ginete, um jóquei confia seu cavalo a um domador, espera que lhe seja devolvido sem vícios, sem atitudes defensivas . O bom domador faz isso.
O pior da profissão são os encontros desafiadores com cavalos traumatizados, agredidos, que receberam maus tratos e que agora devem ser refeitos desde a base. O “horsemanship” é a melhor abordagem para isso.

FORMAÇÃO PROFISSIONAL

Formar-se como domador no Brasil e em outros países é ainda complicado. Atualmente não existe uma instituição de ensino regular, que receba um jovem que goste de cavalos e queira formar-se como domador e o devolva ao mercado com um diploma e com horas de prática e a devida autoconfiança.
São várias as opções de escolas livres, cursos em haras e núcleos de “horsemanship” com cursos entre 18 a 72 horas de prática, uma variedade de cursos de tratador, de gestor, de primeiros socorros, mas que são caros e exigem um investimento em deslocamento e hospedagem, e dependem do auto – didatismo do futuro profissional.
As clinicas, os cursos particulares ajudam e aí depende muito da visão e abordagem do especialista escolhido, da escola a ser seguida. A regulamentação desta e de outras dezenas de profissões do agronegócio cavalo irá abrir espaço para uma formação sistematizada e completa, com currículo padronizado e provas especificas para termos um domador-iniciador certificado no Brasil.

Existe uma conexão espiritual para trabalhar com um Cavalo.

Voce precisa tentar aprender a sentir o que ele sente, e falar com sua alma (essência).
Com o aumento das ações de marketing em torno do tema do “Horsemanship” (relacionamento entre Homem e Cavalo do ponto de vista do Cavalo), com a exposição de recém chegados a esta atividade que tornam-se produtos de mídia –despejando recursos financeiros de sobra, ao mesmo tempo que não trazem experiencia e conteúdo, é necessário recorrer aos classicos para colocar os pingos nos is.
Um exemplo recente foi um programa na TV em um domingo, no qual leigos ficaram impressionados, enquanto outros com um minimo de experiência sabem que um cavalo chucro nunca antes cabresteado não sai da baia cabisbaixo e absolutamente calmo à mão do condutor.
Essas aparentes vantagens que o personagem exposto parece estar ganhando, terminam quando se lhe propõe um desafio real, por exemplo, o de reabilitar um cavalo traumatizado.
Há os que frequentam uma clínica no exterior e adquirem um cabresto magico e vem se propor a trabalhar jovens potros chucros, que se debatem, manoteiam, boleiam, se jogam e saem traumatizados dessa experiencia.
O que falta?
A questão da escolarização de potros a partir da compreensão da sua natureza, da sua linguagem e do reconhecimento de seu direito de auto-proteção, não se resume a técnicas. Não se resume a um tipo de exibição, (show horse), e não pode se dar em cima da motivação da vaidade pessoal. Nada disso serve.
O cavalo nos oferece inumeras oportunidades de crescimento pessoal, de aprendizado e de melhorarmos como seres humanos, nos mostra varios aspectos da nossa vida que precisamos melhorar, ajustar, mudar.
Por exemplo, pessoas aceleradas, adrenalizadas, com dominancia à flor da pele, aprendem a melhorar, se acalmam, podem aprender a respeitar pontos de vista, tempos de resposta mais lentos que os seus, ao passo que pessoas mais passivas, menos assertivas, que tudo aceitam em nome de não polemizar, aprendem, porque que o cavalo assim exige, a tomarem decisões mais claras, mais rapidas e a comunicar-se melhor. Todos aprendem a melhorar a expressão de suas emoções e sentimentos, jovens e adultos com dificuldade pessoais adquirem auto-confiança, todos esses ganhos são presentes que o Cavalo nos dá. Mas para recebe-los, deve-se descer do pedestal do egocentrismo, da vaidade, de uma falsa superioridade escorada em “papéis representados”, é necessario humildade para chegar ao cavalo de igual para igual, abertura para aprender com eles, paz de espirito para falar ao coração do cavalo, ao seu Espírito.
Uma diferença importante entre os que se apresentam para aprender com o Cavalo, é a sua disposição, ainda que em graus diferentes, para viver para o Cavalo, e não apenas viver do Cavalo.
Um dado importante nessa caminhada, é que a chamada “doma gentil” ou natural, favorece o aparecimento de pessoas do bem, que confundem seu papel de liderar o cavalo, sendo um líder alfa cujas atitudes fazem sentido para o cavalo e acabam por fazer o papel da mãe que mima demais o “seu bebê”, esquecendo que se trata de um ser com mais de 400 kg, cheio de vigor e que toma suas próprias decisões.
Ficam confusas pelo discurso dos “horsemarketeiros” que levam as pessoas a quererem copiar o tal “encantador” que apresenta o trabalho com cavalos em uma versão falsa, do tipo “disneylandiana”, que leva essas pessoas bem intencionadas a falar com o Cavalo em linguagem “tatibitati”.
Como ensina Buck Brannaman, Mas você não pode simplesmente sentir pena de um cavalo e renunciar a seu papel como um líder e um professor. Você só não pode mimá-los.
Eu alerto que na natureza, ou quando criados a campo, os cavalos ao comunicarem-se entre si, na sua linguagem chegam a dar relinchos de alerta, murcham orelhas, e mandam os pés naqueles que colocam sua segurança em risco, nos que criam turbulencia no ambiente, uma briga entre eles, demora menos de um minuto, mas é clara o bastante para dar um ponto final. Isso não é violencia, maldade ou agressão. È um toque, proporcional ao seu tamanho, do tipo “pare com isso agora, firmes e claros e podem ser acompanhados de uma palmada corretiva” entre eles. Quando colocam nossa segurança em risco com empinadas, manotaços, coices,como um líder alfa precisamos dar um basta, na linguagem deles, do tipo “Ei, Pare! Voce nao precisa fazer isso quando estamos juntos!”
Os horsemarketeiros não mostram isso, porque não lidam com a vida real e querem vender uma imagem artificial, superior. Mas isso ocorre, porque eles selecionam um dia antes os cavalos que poderão utilizar nas suas exibições, e o fazem com todo um staff que coloca a mão na massa, e dizem, às vezes erradamente, esse serve, essa não, e assim por diante. Pegam os mais tranquilos, fazem seu discurso e levam as pessoas da vida real a irem emocionadas para casa e essas mesmas ao se depararem com seus cavalos em casa, tomam tombos, coices, e não sabem como obter a mesma resposta. Os marketeiros, então recebem cartas e respondem, … – ah isso não pode ser para todos fazerem e assim se auto-valorizam.
Nos nossos cursos, os inscritos praticam com inumeros cavalos diferentes, em idades diferentes, aprendem a essencia da comunicação na linguagem dos cavalos, aprendem a usar o feel, time and balance, são sensibilizados a aprender a sentir como e o que o cavalo sente e desse modo interagem melhor com seus próprios cavalos.
Então, como propus beber na fonte dos verdadeiros horsemen, para sair desse modismo superficial, encontrei trechos de entrevistas de um verdadeiro encantador de cavalos, que dedica toda a sua vida a eles, a melhorar a vida dos cavalos, a protege-los de nossos equivocos. Trata-se de Buck Brannaman, um dos maiores mestres, vivos, ex parceiro de jornadas dos grandes como Ray Hunt, Tom e Bill Dorrance.

“Para muitas pessoas lidar com cavalos é uma jornada sobre auto-descoberta, encontrar coisas que você precisa para ajustar, alterar ou melhorar.
Quando você achar que o cavalo é compelido e interessado em você, algo em você muda. Isso pode ser a cura ou movê-lo profundamente.
Há uma diferença entre dominar algo físico e trabalhar com um animal. Há um componente espiritual para trabalhar com um cavalo. Você está lidando com o espírito de um animal vivo que pensa e toma decisões.
Na natureza este animal não teria nada a ver com você. Portanto a expressão “Natural horsemanship” é apenas palavras. Não é de todo natural nosso trabalho com eles.

Há uma abundância de confiança que deve ser desenvolvida em você.
Imagine se os seres humanos fossem tão maleáveis e dispostos a realizar essas mudanças para atingir objetivos comuns?”-Buck Brannaman.
Em uma outra entrevista dada ao San Diego Horse Wishperer, ele nos brindou com isso: “Tenho uma empatia para cavalos que são problemáticos e com medo. Algumas pessoas ficam com raiva de seus cavalos, mas eu sei o que eles [os cavalos] estão sentindo.
Mas você não pode simplesmente sentir pena de um cavalo e renunciar a seu papel como um líder e um professor.
Você só não pode mimá-los.
Às vezes é o que as pessoas fazem com as crianças que vêm de um lugar muito escuro. Ao invés de dar-lhes sentido e algo para fazer, eles se sentem muito enervados com o garoto e lhes dão um passe livre. Isso é tão destrutivo como o outro. Não há nenhuma orientação nessa atitude. A criança não aprende nada..”- citação do Buck Brannaman.
“É a mesma coisa com as crianças; você já deve ter visto algumas dessas pessoas com seus filhos, em vez de ser um pouco mais engajados e ver quando as coisas estão indo na direção errada e redireciona-los, esperam até que eles façam algo errado.
Então eles querem bater neles, ou chicoteá-los por algo que já aconteceu e as pessoas ainda fazem isso com os cavalos também. Eu vou fazer isso o resto da minha vida, tentar convencer as pessoas que esse não é o caminho a percorrer para melhorar as coisas.”- Buck Brannaman.

Eu convido todos a refletir sobre isso, a saber separar o que leêm, (inclusive aqui), o que ouvem e a classificar, não como expectadores, mas como protagonistas na relação com seus cavalos, e a escolher aquilo que faz sentido para você.

Quando e por que usar… ou não… usar esporas

Por que as pessoas usam esporas? Quando deveriam ou não deveriam?
São ainda freqüentes as perguntas sobre o uso de esporas.-“Eu devo usá-las? – Quando são adequadas? – Alguém deve usar sempre as esporas? Esporas farão um cavalo mais esperto? – Conheço amigos que usam rosetadas, essas são melhores que as de barra fixa, usadas em hípicas?” Consultei diversos especialistas para confrontar com a minha visão e prática e espero que este artigo esclareça um pouco mais o tema. Esse texto teve como base algumas dicas enviadas pela grande amazona norte americana Stacy Westfall.
Há duas coisas importantes a comentar sobre esporas; primeiro — uma espora, pode-se dizer que nada mais é do que um motivador e o segundo e esta pode ser uma surpresa para você, esporas não vão resolver seus problemas de movimentar o cavalo para a frente.
Um motivador é algo que incentiva o seu cavalo para fazer uma mudança em seu comportamento. Este motivador, se for bem usado, está no terreno das ajudas. Outras motivações comuns são as cabeçadas, embocaduras, as pernas enquanto montado e assim por diante. Nós usamos estas coisas para comunicarmos aos nossos cavalos, para deixá-los a par sobre o que é que estamos solicitando.
Por exemplo, quando você está conduzindo seu cavalo e você quer parar; Você vai pressionar para trás as rédeas e a embocadura. Quando o cavalo pára de se mover, você libera a pressão. Neste caso, o alivio da pressão na boca, no exato instante em que ele começa a ceder é o motivador que fornece o sinal para o cavalo. A comunicação clara indica ao seu cavalo que ele fez a coisa certa.
Se você está montando seu cavalo… e você quer mais velocidade, você primeiro vai motivar apertando as pernas, ou mesmo tocá-lo com elas. Quando é atingida a velocidade que você quer, você parar a pressão. O motivador aqui é a sua perna.
Mas, e se você quiser ser mais preciso com o seu pedido? Imagine apontar com um aceno de sua mão para indicar uma direção geral versus apontar para uma localização exata com o dedo no mapa. É aí que entra o uso de esporas na opinião da maioria dos especialistas; Eles acrescentam um maior grau de precisão na comunicação com meu cavalo, porque eu posso ter mais pontos de pressão em uma área menor. Elas também podem motivar um cavalo que sabe o que estou pedindo, mas que está determinado a ser lento ou relutante em responder. É um incentivo adicional quando essa pressão do dente reto é removida.
Esporas não são a melhor resposta para todos os cavalos. Considere este cenário:
Em uma empresa, o Empregado “um” chega ao trabalho cedo todos os dias, feliz por estar ali e pronto para realizar um bom trabalho, faz o que gosta e dá o melhor de si.
O Empregado “dois” vai para trabalhar todos os dias, mas muitas vezes é o último na porta. Embora lento para ir embora, uma vez no trabalho as suas ações podem ser geralmente boas.
O Empregado “três”, por sua vez, trabalha até tarde e perde a hora todos os dias regularmente. No trabalho, este empregado executa mal suas tarefas. Reprimendas repetidas têm pouco ou nenhum efeito. Como o tempo passa, este empregado faz menos e menos a cada dia em um esforço para descobrir como ele pode fazer menos e ainda receber um ordenadinho.
Descobrir com que tipo de “empregado” seu cavalo se parece e então encontrar uma motivação adequada. Você não deve nunca castigar com dores, violencia ou o absurdo de tirar do seu cavalo alimento ou água (que seria uma forma de pagamento), mas você pode tomar medidas que um empregador poderia tomar para levar a criação de consequências para a falta de ação e de vontade.
Os funcionários dois e três precisam ser lembrados das noções básicas de seu trabalho. Se seu cavalo cai em qualquer dessas categorias, de algum modo aprendeu que ignorar as pernas é uma resposta aceitável. Recorrer a esporas nesses casos só vai piorar seu problema e você pode acabar mesmo ensinando seu cavalo para ignorar suas esporas. Estes cavalos precisam repassar por alguns dos mesmos passos que um cavalo jovem atravessa a aprender o movimento para a frente. Isto inclui tudo o que deve acontecer antes da primeira saida externa de um cavalo como trabalho de base, feito do chão, comandos de voz e movendo-se para a frente, colocando-o no redondel sob pressão em sua linguagem. Em seguida, as mesmas lições precisam ser reforçadas da sela.
Alguns cavalos na categoria “funcionário dois” são claros sobre o que você quer, mas eles são lentos em responder. Enquanto as esporas podem ser de alguma utilidade nesse caso, você vai querer certificar-se de que você deve rever o básico antes de dar uma nova oportunidade dele responder. Certifique-se que o problema é seu tempo de resposta e não uma confusão sobre o que é que você está pedindo.
Então quando o uso das esporas é apropriado? Esporas podem ajudar a motivar seu cavalo eficazmente somente depois que o cavalo tiver uma compreensão completa (nível de formação) do que é que está sendo solicitado através das ajudas de pernas e estiver disposto a realizar.
Conforme o seu cavalo progride para maiores níveis de formação, menos e menos pressão é necessária para comunicar um pedido.
Atente para o fato que as esporas, ao invés de serem uma sugestão mais dura, podem realmente ser algo mais suave, por aí se vê como são mal usadas. Com esporas, um ponto concentrado de leve pressão pode comunicar o que exigiria mais pressão de uma superfície maior, como acontece no treino para o salto.

Começe a ensinar o cavalo como responder a uma leve pressao de perna antes de usar as esporas
Quando usadas corretamente os cavalos se importam e respondem ao leve toque das esporas para todos os movimentos. A chave aqui é “usá-las corretamente, sabendo o que voce quer solicitar, considerando o nivel em que ele se encontra no trabalho.”É importante para você conhecer suas próprias limitações. Não use esporas, se você sabe que pode golpear o cavalo com elas quando você não pretende fazer isso, isto é, ficar tocando, cutucando a barriga sem querer ou sem se dar conta. É preciso saber mais que o básico de equitação e saber quando encostá-las no cavalo, que tipo de toque voce quer dar e para que. E lembre-se, usando esporas quando seu cavalo não entende é como falar mais alto para alguém que não fala a sua língua; Isso não ajuda em nada”.
Outras dicas
• Se você nunca usou esporas antes certifique-se de que seu cavalo entende que suas pernas querem dizer “vamos para a frente”. Testar isso usando somente suas sugestões de perna para pedir o seu cavalo para andar, trotar e galopar (sem sinais de voz, chicote, etc.) Se seu cavalo não pode passar este teste, é você que precisa fazer uma reciclagem na sua equitação.

• Se você nunca usou esporas antes de iniciar com o pequeno deslizar delas no contato, este estilo é pequeno o suficiente para que você seja menos suscetível de estimular involuntariamente seu cavalo. Se suas pernas são mais curtas pode ser sempre necessário esporas mais curtas porque seu pé está mais perto do abdomen do cavalo. Se você tem pernas mais longas que penduram, para passar sua perna no tronco dos cavalos, você geralmente pode ir mais longe e usar as que tem hastes mais longas porque suas pernas são menos propensas a ficar batendo nos lados do seu cavalo.

• Usar esporas não fará com que você precise sempre de esporas. Apenas como qualquer outro treinamento cuide para você não fazer um cavalo excessivamente maçante ou excessivamente sensível a qualquer sugestão por causa de seu sincronismo e liberação.
• Nem todos os cavalos precisam de esporas. Avalie suas razões para querer usá-las e se você não tiver certeza, consulte um profissional em sua área de hipismo para aconselhamento pessoal, porque o uso é diferenciado para esportes, trabalho e ou lazer.

Cavalos não são máquinas e não vem com manual

Conseguir confiança, respeito, cooperação do seu Cavalo é uma longa jornada de amor, dedicação, compreensão mútua, flexibilidade fisica e mental para os dois e isso é tarefa de todos os dias, de todas as horas que estamos trabalhando com eles.
Cavalos não comportam soluções prontas, receitas simples, apertar esse botão e conseguir aquilo que pensa ser o certo. Quase nunca, o que voce apenas pensa ser o certo é de fato o certo. A boa relação com o Cavalo começa com o aprendizado do uso do seu “feeling”, ou seja, da sua intuição, sensibilidade, coração e exige que sejamos firmes com a gente mesmo e justos com o Cavalo, facilitando a cooperação e dificultando a chance de confronto, defesa e fuga.
Não tem pessoa séria que diga: “tá vendo esse cavalo… vou fazer isso, isso e aquilo e vai funcionar assim”. Olhar, ler o cavalo e respeitar o Cavalo no tempo dele é muito importante para o Cavalo e ele sabe e sente isso. Afinal, eles não são uma peça de equipamento ou uma máquina que você vai e compra com um manual do proprietário para usar bem.
Eles têm sentimentos e tomam decisões, algumas delas são boas, algumas não são tão boas assim, mas farão parte do caminho da experiencia com cada um deles.
Mas temos de viver e trabalhar com isso e melhorar muito nossa comunicação com eles,na linguagem deles, e talvez quando a gente repetir, tentar outra abordagem, fique mais claro e eles possam entender algumas das nossas necessidades e igualmente temos de entender as necessidades de cada um deles, em cada fase da sua escolarização.

Mas não pode esquecer nunca que você está trabalhando com um indivíduo.
Então, portanto; Trabalho com cada um deles como eles são… não como eu quero que eles sejam, mas o que eles estão podendo e conseguindo ser em cada momento.
Insisto que a partir do post que tenho no site sobre fazer a boca e a nuca do cavalo, com mais de 80 comentários até outro dia, a grande maioria girando em torno de qual embocadura é melhor para conter o cavalo, ou para o cavalo fazer isso e aquilo, ou ainda, meu cavalo acaba de ser “domado” mas não faz isso ou faz aquilo… e minha resposta mais refinada tem sido na direção: “ voce tem que se esforçar por melhorar a qualidade do seu trabalho montado, da sua sentada e do seu trabalho de pernas, do seu equilibro, compreenda mais sobre transferencia de peso, sobre centro de gravidade, sobre como ele precisa sentir para deslocar a paleta ou as pernas”,…
As “armas” que ainda se usa para baixar cabeça, a força que se põe nas mãos, o peso que se põe na boca, as tiradas de queixo, são formas acabadas da estupidez humana, é o que consigo dizer depois desses quase 20 anos.
Claro que curiosos, vendedores de ferramentas magicas, cabrestos especiais quase automaticos para forçar ou induzir respostas, se multiplicam por ai. Tive o desprazer outro dia de ver um vídeo onde chamaram de cabresto gentil uma sessão de pressao e fuga com um potro que não terminou com adesão voluntária, com mudança de atitude mental, e nem poderia, pessoas que não sabem chegar, sentir, ler a emoção dominante do cavalo, mas com adrenalina de controlar tudo, contida “para ingles ver”, mas cheirada e sentida pelo potro não podem obter confiança e passar segurança ao potro.
É o mesmo que ocorre entre pessoas quando uma fala uma coisa e faz seu oposto. Logo mais a frente serão desmascaradas. Podem enganar algumas pessoas o tempo todo, podem enganar todas as pessoas pouco tempo, mas nunca todos o tempo todo. Mas o cavalo é mais implacável. Ele nunca é enganado. O cheiro da adrenalina dos vendedores de soluções mágicas e cabrestos especiais não enganam o cavalo um só minuto. Porque dizem que o cabresto é gentil, mas o cheiro de medo e adrenalina não é, e dái o cavalo salta, corcoveia, quer se livrar e fugir de perto.
Mania besta das pessoas quererem se aproximar do cavalo para aplicar um método de contenção e imobilização eficiente.
Cavalos sentem e tomam decisões. Lidere-o, esforce-se para merecer sua confiança. E eles não precisarão de contenção forçada eles estarão ali ao seu lado, prontos para jogar junto.
Vivi uma experiencia desse tipo terrivel e num instante quase perigosa, num curso no interior de SP, quase me tornei o “zé sem orelha”, mas esquivei a tempo, na linguagem do cavalo alfa, aquele que nunca é mordido, sintonizei com a energia da égua assustada e defendida e ela a seguir deslocou a paleta, flexionou o pescoço, e ficou durante toda uma seção de imprinting com a cria dela, com o pescoço na horizontal, flectido e confiando totalmente na abordagem que construímos.
Sem botão liga-desliga, sem cabresto mágico e isso é uma das fases de um bom horsemanship, de um bom relacionamento.
Para muitos curiosos, precisamos compartilhar conhecimento e dar orientação, para mesquinhos, limites, aos que gastam dinheiro em enfeites, fivelas, botas de avestruz, mas querem montar a cavalo numa sela ruim, com manta fina demais, com cilha barata que belisca todo peito do Cavalo e fazem ele trabalhar mal dirigidos o dia todo, com dores, com pisadura na coluna, com assaduras, mal ferrageados, precisamos educa-los.
A educação do cavaleiro e proprietário é responsabilidade de treinadores, de criadores, de vendedores, de quem vive pelo Cavalo, mas ainda não somos a maioria, perdemos para os que vivem do cavalo.
Quer comprar ou ter um cavalo? A primeira pergunta para que? Resposta ok, passamos ao segundo ponto, ter um cavalo não é status, não se pode comprar por impulsos, não pode ser para mostrar aos outros, e nem apenas para usufruir. Significa responsabilidade, compromisso mutuo, prazer em ensinar e principalmente aprender com o Cavalo … se for nessa ordem teremos pessoas melhores em um mundo melhor. É a contribuição do Cavalo para nossa sociedade egocentrica, vaidosa, autossuficiente, violenta e etc.
“Para muitas pessoas ter e andar a cavalo é uma jornada sobre auto-descoberta, encontrar coisas que você precisa para ajustar, alterar ou melhorar.
Quando você achar que o cavalo é compelido e interessado em você, algo em você muda. Isso pode ser a cura ou o começo de uma mudança profunda, primeiro na forma de ver as coisas, na sua relação com o tempo delas acontecerem e depois uma mudança nos seus valores, no que de fato importa. O tempo e a distância dessa boa viagem é o de cada um. Sem receitas.
Há uma diferença entre dominar algo físico e trabalhar com um animal. Há um componente espiritual para trabalhar com um cavalo. Você está lidando com o espírito de um animal vivo que sente, se defende e toma decisões que fazem sentido na mente dele.
Na natureza este animal não teria nada a ver com você. “Natural horsemanship” são só palavras. Não é de fato natural porque entramos sem pedir licença na natureza deles e quase sempre queremos mais tirar do que compartilhar, como em tudo. Há uma abundância de confiança da parte dele que deve servir para ensinar algo a cada um de nós.
Imagine se os seres humanos pudessem ser tão gentis e generosos como o cavalo é conosco?
Jose Luiz Jorge
Horseman*
*baseado na pratica e no aprendizado com os Cavalos e nos ensinamentos ainda que distantes de Buck Branaman, Tom Dorrance, Ray Hunt, e dos mestres daqui, Eduardo Borba, Bjarke Rink –referencias saudaveis e afirmativas que temos ao alcance das mãos hoje em dia.