Dicas sobre como abordar o Cavalo para quem quer viver um bom “horsemanship”

Depois de vinte anos, o Horsemanship começa a ser empregado mais amplamente, e aí como o brasileiro é muito ligeiro, começamos a ver de tudo um pouco, desde a aplicação do termo sem uma compreensão mais profunda do que isso significa, vemos pessoas da lida tradicional incluirem a expressão “horsemanship” ao lado de suas marcas e vemos mesmo pessoas já vividas reduzirem todo o conceito e a filosofia a uma simples expressão.

Então, como contribuição e sem pretensão, aqui me proponho a jogar alguma luz na questão. Abrir mesmo um debate construtivo, pelo bem do Cavalo e das pessoas bem intencionadas.

A relação entre Homem e Cavalo alcançou novos patamares a partir da ação de verdadeiros cowboys, do século XX, capazes de tocar a alma do Cavalo, mais focados em construir um ambiente de confiança, duradouro e focado no resultado do trabalho, ou seja, na formação de bons Cavalos.

Dentre estes mestres situamos os irmãos Tom e Bill Dorrance, que lidaram com cavalos toda sua vida, dos 5 aos 80 anos, o Ray Hunt que começou como discípulo deles, e Buck Brannaman entre outros, no Brasil, o nosso Eduardo Borba. Aqui, tomei a liberdade entre um pensamento e outro de inserir uma nota explicativa, fruto das nossas observações do dia-a-dia, mais como complemento e esclarecimento do que como pretensão pessoal.

Eles resgataram a expressão “Horseman-relationship

Por quê resgataram? Porque a primeira obra com referencia a essa expressão, data de 2500 A.C. , o livro do general grego Xenofontes, chamava-se “A arte do Horsemanship”, um manual para os soldados estabelecerem um relação de respeito e confiança com seus cavalos, parceiros, dos quais dependiam suas vidas.

historyartofhors00bere_0009Como em todas as áreas do conhecimento humano, os valores da Antiguidade Clássica foram apagados pelo atraso da Idade Média. Quase mil anos de ignorância e obscurantismo deram margem a uma relação de brutal violência entre os homens e os cavalos.

Então os velhos mestres resgataram um conceito fundamental, “coloque a sua alma no lugar da alma do cavalo”, veja o mundo como eles vêem, ajude-os a encontrar alívio e conforto, a sentirem-se seguros quando ao nosso lado, chega de tentar fazê-los obedecer pela força e brutalidade dos ignorantes que não conhecem a Natureza do Cavalo. Chega de tentar usá-los como fator de espetáculo circense sem nenhuma relação com a Boa equitação.

Na expressão Horsemanship, a palavra cavalo, em inglês, vem na frente e isso NÃO É POR ACASO. Então não existe bom ou mau Horsemanship, isso na opinião dos reduzem a expressão a uma tradução ao pé da letra. Horsemanship significa estabelecer uma relação do ponto de vista deles, o cavalo, suas necessidades, medos, insegurança, em primeiro lugar, na frente.

Existe o verdadeiro horsemanship antes e depois dos Mestres. Muitos dos nomes em evidência hoje, chegaram mesmo a ser alunos desses Mestres, mas que hoje tem se entregue à pressão da grande mídia, à vaidade e ao capricho do Ego, e especializaram-se em uma habilidade, valorizando um “reconhecimento pessoal” que a TV ou as revistas oferecem.

Enquanto eles buscavam muito mais a resposta certa dos mais de 10 mil potros que iniciaram, ou a recuperação de um Cavalo traumatizado, como o trabalho de Buck que verdadeiramente inspirou o livro e o filme “O Encantador de Cavalos”.

A reprodução do ensinamento generoso dos grandes mestres do Horsemanship, é um tributo ao que eles fizeram pelo Cavalo, lamentando ao mesmo tempo o quanto é triste a falta de referencia histórica das TVs, dos programas que hoje fazem um verdadeiro “auê” em torno de pessoas que vivem sim do Cavalo, mas não para o Cavalo. Não vamos confundir mais os espetáculos de marketing e os aplausos para showmens que reduzem o cavalo à condição do espetáculo cheio de mistificação, de selecionarem cavalos calmos um dia antes dos seus shows, sem relação com Horsemanship

cursos 5Um bom Horseman deve ter coragem de Leão, Paciencia de Homem Santo e mãos de Pianista

O cavaleiro ideal “tem a coragem de um leão, a paciência de um Santo e nas mãos de uma firme sutileza no toque.”

Por que um leão? Porque ele vai atacar um animal muito maior, sem hesitação, e nós humanos até agora somos superados em muitas notas (10 x 1), pelos cavalos.

A paciência de Homem Santo é auto-explicativo, porque qualquer um que tem sido em torno de cavalos sabe deve tê-lo ou você não conseguirá nada. E quantas vezes vemos tratadores e treinadores sem conhecimento efetivo da Natureza do Cavalo os espancarem, castigarem com violencia … gritando ô cavalo isso e aquilo, como tem coragem de me desobedecer?

“Quando um Cavalo não compreende o que esperamos dele, isso ocorre por três razões:

  1. não lhe foi ensinado antes
  2. não teve o tempo de resposta respeitado
  3. ou está confuso e não compreendeu o pedido.

Quando uma dessas três coisas acontece você vê isso refletido na sua expressão e na aparência do seu corpo pedindo ajuda”, ensina Eduardo Borba (DOMA).

E as mãos de pianista? Bem, em sociedades primitivas, diz Dr. Miller, os homens faziam a maior parte da caça e a defesa do grupo, e isto é simbolizado por um punho fechado, que é visto como masculino.

O uso dos dedos, por outro lado, é tido como “sutileza”. E se queremos leveza e boa comunicação com o nosso cavalo sob a sela, diz o Prof. Miller, precisamos aprender a usar os dedos, em vez segurar as rédeas com um punho fechado, cheio de força equivocada.

Vale a pena ler, pensar, refletir, comparar com sua prática ao lado dos cavalos e tentar captar as mensagens essenciais que estão entre as linhas do pensamento destes Mestres.

Vamos lá, boa leitura e reflexão.

“ A sensibilidade nos dá o tempo e o tempo nos dá o Equilíbrio” Ray Hunt

“Não é o cavaleiro que tem um cavalo com problema, mas o Cavalo que tem um cavaleiro com problema” Mary Tweelveponies

“Temos que aprender a sentir o que ele sente” Ray Hunt

“Pensar, sentir e reagir como o Cavalo, é muito mais do que olhar racionalmente com seu ponto de vista. O sentir o que o Cavalo sente quer dizer, colocar-se de fato e por inteiro no lugar do cavalo”. José Luiz Jorge (RSM)

“Responsabilidade Mútua é fundamental para a verdadeira integração Homem-Cavalo. Você pede o Cavalo responde, Voce alivia. É assim que ele aprende. Na verdade, o que ensina é o alívio da pressão. Essa a linguagem natural deles”. Eduardo Borba (DOMA)

“Seu Cavalo não será cuidadoso e preciso se você não for cuidadoso e preciso”. Ray Hunt

“ Aprenda a pensar do ponto de vista do Cavalo, para poder compreender sua linguagem. Nunca perca o controle de si mesmo”. Ray Hunt

“ Quando o processo é o aprendizado, e não um processo que causa apreensão e desconfiança, onde o medo seja a tônica, os resultados não demoram a aparecer”. Tom Dorrance

“ O cavalo primeiro tem de desenvolver a confiança no ambiente, depois, nele mesmo e só depois no seu cavaleiro”. Tom Dorrance

“O cavalo é espelho do cavaleiro”. Dito popular

“ Aquilo que você não tolera ver no comportamento do seu Cavalo é o que você não gosta em si mesmo”. Mude e ele muda. No trabalho com potros e cavalos não existe pressa e nem respostas instantâneas” José Luiz Jorge (RSM)

“ Muitas vezes, ir devagar é o jeito mais rápido de se chegar lá”. Tom Dorrance

“Não tenha medo de expor seu Cavalo a coisas que ele nunca viu antes, mas …. tome cuidado para não sobrecarrega-lo. Nunca porém, o exponha a situações nas quais ele pode perder a confiança que acabou de adquirir”, Tom Dorrance

“ Faça com que as coisas erradas fiquem difíceis e as certas, fáceis”. Ray Hunt

“Não se esqueça que existe um propósito e um significado atrás de cada coisa que você pede para seu cavalo fazer”. Ray Hunt

“ Todas as solicitações, além de claras e no tempo correto, devem ter sentido na mente do Cavalo, lembre-se de que ele é seu parceiro de trabalho e deve ser respeitado assim, e não um escravo a fazer até mesmo coisas sem sentido, só porque você mandou”. José Luiz Jorge (RSM)

“ Se você quer ensinar algo ao seu Cavalo e ter um relacionamento com ele, você não FAZ ele aprender, você PERMITE que ele aprenda, você é o responsável para criar situações onde ele possa aprender”. Ray Hunt

“ Se você controla seus pés, você controla a mente do seu cavalo”. Ray Hunt

“ Observe, relembre, compare”. Ray Hunt

“ Existe diferença entre ser firme e ser áspero ou rude. Você pode ser firme, mas não seja áspero”. Ray Hunt

“ A pior coisa, dentre vários comportamentos inadequados ao cavaleiro, é agredir o Cavalo. Isso só confirmará seus medos e a certeza de que aquele treinador não merece a confiança dele, o resultado é que essa pessoa não irá liderá-lo. A resposta por medo e submissão não é duradoura e nem se sustenta diante de outras pessoas que não o aterrorizarão, como o mau treinador fazia”. José Luiz Jorge (RSM)

“ Admire seu Cavalo pelas coisas boas que ele faz. Ignore as erradas. Você logo vai perceber que as boas ficam cada vez melhor e as ruins, cada vez menores” Ray Hunt

hunt_a“Monte a Cavalo com o corpo todo e a mente integrada, e não apenas com mãos e pernas” Ray Hunt

“Experimente dar a direção ao Cavalo, tanto no trabalho de chão, como no trabalho montado, com o foco do seu olhar. Para onde você olhar, você dará a direção, ele capta essa integração mente-corpo com muita sutileza e suas pernas apenas ajudarão suavemente a confirmar a sua escolha”. José Luiz Jorge (RSM)

“ O Cavaleiro deve estar sempre vivo e alerta, sem estar tenso e endurecido”. Ray Hunt

“ Diga sempre ao seu Cavalo: Você vai conseguir fazer isso, prepare-o antes de solicitar, isso é muito melhor do que dizer – você tem que fazer”. Ray Hunt

“ Perceba a menor mudança, a menor tentativa do seu cavalo na direção do que você está solicitando e reforce-o positivamente”. Ray Hunt

“ São as pequenas coisas, os detalhes que fazem a diferença. Quando ocorrer qualquer coisa fora do esperado, volte mentalmente a fita e lembre-se do que aconteceu imediatamente antes daquele acontecimento indesejado”. Ray Hunt

“ Algumas vezes, quando termino um trabalho e o Cavalo está mais quente e suado do que o normal, gosto de ficar com ele, ajudando-o a compreender que tudo aquilo é um assunto que vamos ter de conviver, e gosto de deixar ele explorar um pouco mais o que ocorreu”. Tom Dorrance

“Existem muitas coisas que, acidentalmente, podem acontecer ao seu cavalo, mas, se ele for dócil e confiar em você como amigo, ele vai permitir que você o ajude a sair daquela encrenca, em vez de perceber você como a causa daquela encrenca”. Buck Brannaman

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Horsemanship e Empoderamento Feminino

Aprendendo com o Cavalo para Mulheres, nosso novo curso em 25 de Junhocurso de horsemanship para mulheres 21_05

Venha conferir como o cavalo pode ajuda-la no autoconhecimento e construção de novos objetivos pessoais e profissionais

“A égua alfa é que conduz o rebanho. Ela decide ir onde a pastar, quando dormir, onde está a melhor água, etc. Ela escolhe o terreno onde a manada pasta de modo que possa ver antes a aproximação de predadores, e lidera com sabedoria e sem violencia todo o rebanho. Ela não impõe-se como um líder, ela emana do grupo por sua sabedoria, agilidade, firmeza, experiência e sua compassividade. ” Ela lidera pelo exemplo.

Neste workshop, um grupo de mulheres irá reunir-se para descobrir e/ou valorizar seus pontos fortes, conectando se com a energia de uma manada de éguas que vivem a campo, com outras mulheres e a Natureza. Vamos identificar e elaborar sobre limites, bloqueios, inseguranças;

Colorado no curso de equilibrio
Aprenderemos a agir com integridade e desenvolver e respeitar nossa intuição e através de atividades com cavalos.
Guiado por José Luiz Jorge, Horseman

curso FMU 3aT (2)

Qual a proposta do curso

-Fundamentos do Horsemanship (Natureza, linguagem, emoções)
-O que faz sentido na vida dos cavalos e como eles nos ensinam muito sobre a vida e as relações
-Começar a definir os limites
-Gerenciar as emoções afirmativas e negativas sabiamente
-Aprender a comunicar-se com clareza
-Linguagem e Comunicação não verbal
-Liderança pessoal
-Desenvolver a coerência entre a mente e o coração (auto respeito)
-Construir a confiança em si mesmos e nos outros

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Não é necessário experiência anterior em cavalos.
Com apostila e certificado
Dia 25 de Junho. Faça sua Inscrição pelo site www.ranchosaomiguel.com
R$ 450,00 pode ser parcelado no CC ou cheque
Grupo de no máximo 10  mulheres

Bem Estar animal, ou você tem o compromisso ou não tem

O compromisso com o Bem Estar animal, no trabalho com Cavalos deve ser compreendido como uma opção integral, em todos os aspectos de nossa relação com eles, e não apenas um discurso politicamente correto, enquanto o Cavalo faz de modo “obediente” o que é solicitado.

Quanto mais aumentam as informações disponíveis, ao alcance de todos, sobre a Natureza comportamental, a linguagem e o que o Cavalo nos pede quando relaciona-se com as pessoas, mais vemos algumas pessoas aderirem a esse tema, e comprovarem os resultados dessa abordagem.

O problema é que, como ocorre em outras áreas, ainda vemos muita distância entre o falar e o agir.

Compromisso integral

Entendemos como compromisso integral a sua aplicação e respeito em todos os aspectos do manejo, em Haras, Hípicas, Ranchos e Centros Equestres.

Instalações

Na hospedagem em mais de 95% dos locais desconsidera-se ou por tradição ou comodismo a natureza do Cavalo como animal de manada. Ele sente-se seguro, confiante e calmo, quando tem esse aspecto essencial para os animais predados, respeitado.

Ah, podem dizer, mas isso só se aplica ao manejo a campo, em piquetes, onde o sentido de manada existe. Na vida em confinamento ou semi-confinamento em baias ou cocheiras isso acaba.

E por que? Porque na quase totalidade dos estabelecimentos as baias são fechadas até o teto, e inibe-se o contato físico e visual entre animais, mesmo se tratando de cavalos inteiros. Aqui no Rancho São Miguel nossa experiência prática há quase 20 anos mostra o oposto. Nossas baias tem pouco mais de meia parede entre os machos e meia parede em todos os lados para fêmeas. Resulta disso aliado a outros fatores trazidos pelo Horsemanship, em cavalos calmos, centrados, sem nenhum dos vícios de confinamento. Aqui não existem cavalos que mordem, que escoiceam, que comem fezes, que engolem ar, que manifestam a chamada dança do urso,

baias sociais e bem estar

Baias ventiladas com conforto, espaço, camas boas secas e sem pó, água fresca à vontade nos bebedouros automáticos, limpeza duas vezes ao dia, soltá-los parte do dia em piquetes, mudar a rotina, baia, pista, treino, banho, baia, incluindo “momentos de lazer na manada” espaço para pastejar após o trabalho, não com objetivo nutricional, mas proporcionar o simples arranchamento de capim, promovem bem estar físico e mental.

Já temos diversos registros de reabilitação mental aqui, de cavalos de fora que vieram cheios de bardas e a chave para refazer a confiança do cavalo nas pessoas é aplicar os conceitos do Horsemanship.

Quais são esses conceitos e como eu defino o Horsemanship?

A expressão na língua inglesa seria ao pé da letra: horse=cavalo, man=Homem, ship, da palavra relationship que quer dizer relacionamento. Só que muitos estudiosos e treinadores experientes se limitam a ver a expressão ao pé da letra e ponto. Não é assim! Não é a toa que horse (cavalo), vem na frente. Isso muda tudo. Poque Bill Dorrance em seu livro épico, O verdadeiro Horsemanship através do sentimento (feeling) define toda a essência. O relacionamento se estrutura do ponto de vista do cavalo. Na linguagem do cavalo e no tempo de cada cavalo que é único. ISSO FAZ TODA A DIFERENÇA.

E aqui nós ensinamos as pessoas que vem fazer nossos cursos e clinicas e tentar se colocar sempre a cada ação, no lugar do cavalo, (mentalmente), e assim aprender a ler o cavalo e aliviar a pressão no momento certo; essa a base da confiança dele em nós.

Então vamos construir juntos?

O Cavalo aprende no alivio da pressão

A linguagem do Cavalo na natureza se baseia em pressão e alivio

O Cavalo espera de nós clareza na comunicação, respeito ao seu tempo e alivio para ele agir e responder

Quando o Cavalo bão faz o que lhe pedem, isso se dá por três razões possíveis;

  1. Não sabe, não aprendeu, não foi apresentado a ele antes
  2. Não teve tempo de responder e já foi mais pressionado ou apanhou e ficou confuso
  3. Os pedidos foram contraditórios, exemplo, pediu-se algo com as pernas e outra coisa diferente com as mãos e o corpo

Voce não ensina nada ao Cavalo, você permite que ele aprenda. E vc aprende junto com ele.

Cada cavalo é único, com sua história de vida, seu tempo, e o que vc fez com um, nem sempre serve a outro.

O Cavalo numa escala de zero a dez, supera o homem em várias notas. Ele sabe o que você sabe e o que você não sabe, inclusive sobre você e seus medos escondidos atrás da estupidez e da violência.

A pele do cavalo tem mais terminações nervosas que a nossa pele, ele sente mais dor do que nós, mas tem uma enorme capacidade de suportá-la quieto, esperando que o estúpido que lhe agride sem ele saber porque acorde e leia o que ele está dizendo.

O treinador se adapta a cada cavalo e não o contrario

O que o cavalo quer? Sentir-se seguro e viver em paz. Quem lhe confunde e ameaça é o Homem

O Cavalo sente cheiro de hormônios à distância. Inclusive o da Adrenalina que o Homem exala quando tem medo e tenta esconder esse medo com agressividade.

A adrenalina está gravada na memoria do cavalo como sinal de perigo, porque tem o mesmo cheiro da adrenalina da onça ou do lobo que lhe atacam a campo, desde sempre.

O cavalo tem medo do seu (cheiro de) medo então

Quando vejo um treinador espancar um cavalo, eu leio, esse cara diz que é bom, mas se borra de medo de cavalo e esconde isso sendo violento e agressivo sem necessidade. E são esses mesmos que dizem que Horsemanship e Bem estar animal “ é frescurada”.

Nesse cenário, quando o cavalo retesa o pescoço, arregala os olhos, aperta o beiço, sobe a cabeça e empina, não é hora de fazer nada, pedir nada até que ele sinta sua intenção e relaxe e mastigue, a continuar na hora que ele dá sinais de defesa e medo, a brutalidade, então ele empina e tenta se soltar, pode estirar, bolear (reações de fuga e pânico) causadas pela pessoa despreparada que o açoita ou pressiona na hora errada, e se não conseguir fugir, então ele manoteia, escoiceia e tenta morder.

Então, que estraga o cavalo é o despreparado e ainda o cavalo leva nome de ruim, de problema ou cavalo mau.

Não existe cavalo problema. Somente pessoas com problema (de não saber ler e sentir o que o cavalo sente e pede, as vezes gritando em silencio).

egua de campo, casqueada solta

Na foto, uma égua “chucra” de campo, sendo casqueada, desamarrada, no Rancho São Miguel

Cansei de ver treinadores ditos experimentados, cobrirem o cavalo no chicote sem resultado

O bem estar animal, então se resolve em cada procedimento do dia-a-dia. Na tosa de orelha sem precisar pito, torcer ou pendurar nas orelhas, mão “amiga”, chicote, na hora do casqueamento e ferrageamento, na hora de limpar a cocheira onde tratadores desqualificados batem com cabo do garfo nas costelas do cavalo para ele ficar longe.

Há muito a ser feito para podermos evoluir ao nível do Cavalo;

E nesse rumo é que estão a equitação natural, sem ferro na boca e em certo sentido sem ferro nos pés. (bitless e barefoot);

O bem querer e o respeito ao Cavalo estão na base do Horsemanship da política de bem estar, a meu ver fora dessa linha o limite entre o mínimo necessário e os maus tratos é um fio de cabelo.

O mesmo se aplica ao uso de força abusiva na ação de rédeas com ferro, que causa graves danos à boca, maxilar, dentes, ossos faciais, nervos e músculos da cabeça e da nuca.

O mesmo se dá com provas prematuras de potros muito jovens, com o treino excessivo em potros cujas estruturas de músculos, ossos e tendões ainda não estão formadas;

Quem monta, inclusive ganha provas de marcha, apoiando pesadamente na boca do cavalo, como se fosse correto reunir o cavalo da frente para trás, também viola o conceito de bem estar animal e é por esse conjunto de temas, cada um dos quais renderia horas de conversa, que insisto em afirmar que bem estar animal e Horsemanship pedem uma abordagem integral e não pela metade ou em partes.

Do Horsemanship para a chamada Equitação Natural: evolução no conceito de bem estar animal

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Quem acompanha nosso trabalho há algum tempo sabe que temos adotado como linha central :- “que estamos aqui pelo Cavalo”. Mas, depois desses 20 anos, trabalhando na filosofia do Horsemanship, não atuamos por modismo, nem tampouco para fazermos exibições ou showhorse. Nossos cursos e atividade tem ganho milhares de pessoas para aprenderem a observar o mundo do ponto de vista e na linguagem do Cavalo.

Então, para além da escolarização, nossa filosofia se aplica no manejo diário, nas instalações sociaveis, no encilhamento com eles soltos a nosso lado, no imprinting de potros, (que nada tem a ver com doma prematura), no uso do bitless bridle (equitação soft – ou sem ferro na boca).

Agora estamos dando o próximo passo, com atraso de alguns anos em relação à Europa, ao colocarmos claramente a questão da opção pelo barefoot (cavalos sem ferro nos pés), ou equitação Natural.

Para isso temos a nosso favor uma grande evolução na compreensão da fisiologia dos cascos, na necessidade de promover movimento natural nas estruturas internas, ampliando a irrigação e circulação sanguinea dentro dos cascos como fator de cura e saúde, e prevenção de doenças agavadas pelas condições de confinamento e uso permanente de cravos e sapatos de ferro tradicionais que favorecem (não causam), o surgimento de doenças, das mais superficiais às mais graves, como laminites.

Manejo Natural

Os cavalos selvagens, andam a pé , muitas vezes,50 km todos os dias, e têm casco duros e bem ajustados, apesar de nunca terem tido ferraduras.

Aqui temos ¾ da tropa a campo e são profundas e nitidas as diferenças entre a saude dos cascos deles, com o que se tem no ¼ dos animais semi confinados, considerando ainda padrão ótimo de camas e manejo sanitário, muito acima da media geral dos locais que hospedam cavalos.

É um mito que perdura milenios, de que a ferradura seja um “mal necessário”… é possível para a maioria dos cavalos trabalhar sem ferraduras. Muitos dos cavalos que trabalham livres da ferradura demonstram em todas as observações, a campo e cientificas, que estão muito mais saudáveis e felizes.

Segundo relatos da Associação Portuguesa para Equitação Natural, “..estudos recentes permitiram estudar a mecânica do casco do cavalo e como podemos alcançar os cascos duros, bem ajustados e saudáveis que a natureza destinou para o seu cavalo”.

Alguns cavalos sem ferraduras competem em provas de enduro equestre, nos mais variados e agressivos terrenos, percorrendo mais de 100 Km, ou nas provas de dressage, hipismo clássico e CCE e nas corridas.

Muitos proprietários de cavalos não têm nenhuma ideia se o seu ferrador faz um bom trabalho ou não … mas para ter um bom desempenho o cavalo precisa dos seus 4 cascos em perfeitas condições de aprumos, angulação, profundidade de ranilhas e favorecimento do movimento natural em todas as direções, com a liberdade para as estruturas de apoio, o que a ferradura tradicional limita.

As técnicas de manutenção de cavalos com os cascos descalços, podem ser facilmente aprendidas por qualquer pessoa que se interesse o suficiente para estudar o assunto.

Os grandes ferradores profissionais devem ver esta técnica como uma oportunidade e não como uma ameaça … uma vez que deixam de ter clientes e passam a tê-los como pacientes, que receberão os melhores cuidados de podologia.

Muitos cavalos que sofrem de problemas de cascos e doença do navicular podem ser tratados com sucesso e reabilitados sem ferraduras, bem como os que apresentam quebras na muralha do casco e fragmentação na área onde são aplicados os cravos.

Os cavalos são animais que vivem na natureza em manadas, e essa organização social grupal, os protege do ataque de predadores. O seu sistema de comunicação altamente desenvolvido e é usado principalmente através da linguagem corporal ajustada também para ler o comportamento das espécies predadoras, assim eles conseguem frustrar tanto fisicamente como emocionalmente potenciais predadores na luta pela sobrevivência. Os seres Humanos são predadores, olhos na frente, adrenalina saindo pela pele, que levam os cavalos a adotar com frequência, no manejo tradicional, a reações de defesa e fuga, à desconfiança e a acionarem esses seus mecanismos de defesa e dependendo do carácter do animal a ter reações “mais agressivas”, só que além disso, o desconforto, incômodos, dores também alteram o “humor” dos cavalos.

As pessoas não são treinadas a ver o mundo do ponto de vista do Cavalo, e não analisam as causas dessas reações, na maioria das vezes, sentem-se desafiadas e querem disciplinar o cavalo, interpretando as reações naturais como bardas, violência, e pretendem resolver essas situações aumentando a pressão, aumentando a violência, o que agrava as respostas de defesa e fuga numa espiral que termina por inutilizar aquele cavalo.

Nós, no Horsemanship estudamos o comportamento dos Equinos, (Ethologia), de modo a que possamos aprender a ler o cavalo e sua linguagem corporal, com a finalidade de compreender seus os sentimentos e intenções.

Devemos aprender a convencer os cavalos, pela nossa atitude, cheiro, energia, que o cavalo pode confiar em nós, que não somos uma ameaça, aprender a falar a linguagem Natural e corporal do Cavalo, para que eles, no seu tempo próprio nos reconheça como a um deles.

Nossos cursos de Horsemanship servem para você aprender a realizar essa comunicação mais refinada, nada racional, então você terá uma boa comunicação com eles.

Quando você conseguir ganhar a confiança do cavalo, sendo ele um animal de manada, você coloca toda aquela energia dele a serviço de um estimulo para o contato, para o convívio, no trabalho, nas provas e no lazer numa relação de total parceria. Um cavalo calmo, com confiança, aprende muito mais rapidamente a viver e entender o mundo dos humanos e aceitando de bom grado os desafios mentais que o Homem (treinador, equitador, cavaleiro) apresentar no dia-a-dia.

Claro que isso é muito mais seguro quando montado tornam-se um só. A ideia passa a ser a de que os dois juntos tornem-se um só.

Os ganhos de saúde são naturais, uma eliminado o medo e stress, as defesas naturais, a oxidação das células, os vícios e problemas comportamentais podem desaparecer rapidamente quando uma abordagem mais natural é levada para um treino de cavalos fundado no bem-estar.

Buscamos criar uma relação de confiança, cooperação, respeito e preservar a sua dignidade, sem a utilização do medo, da violência ou de coerção física. Horsemanship também forma e treina as pessoas, é assim e principalmente um sistema de educação de pessoas a ler e treinar cavalos. Os Cavalos já sabem como ser cavalos…e sabem o que somos, a ideia aqui é surpreende-los positivamente, estando abertos a aprender com eles uma vez que nem sempre sabemos como lidar com toda aquela emoção, que amplifica nosso próprio modo de ser, de ver e de agir.

A opção pelo Barefoot ou equitação Natural, é uma evolução da abordagem do Horsemanship, como é o Bitless (sem ferro na boca), onde cavalo e cavaleiro não formam um conjunto, mas um só ser, mais forte e determinado que os dois separadamente.

“A equitação natural é o equilíbrio de entendimento entre o Cavalo e o Homem, é a aceitação através da comunicação estabelecida, assim, mais do que montar um cavalo é a partilha de um momento com a maior proximidade entre o Cavalo e o seu amigo Homem…” situa muito bem Janet Hakeney.

Ou como define a APEN (Associação Portuguesa de Equitação Natural), : “Seja qual for a modalidade ou o objetivo a realidade entre o cavaleiro e montada pode mudar para melhor com a introdução do método da equitação natural, tudo aquilo que não entende sobre o seu cavalo ou mesmo aquilo que o cavalo não entende de sobre si, pode ser transformado em comunicação e entendimento gerando a confiança e tranquilidade necessária para obter melhores resultados, criando a satisfação e a harmonia num dia de trabalho ou num mero passeio”.

DEVEMOS CRIAR CONDIÇÕES PARA O CERTO FICAR FÁCIL E O ERRADO, DIFÍCIL

Este texto é continuação do anterior, quando falei sobre reconhecer cada cavalo como único. Quando começo com um novo cavalo, em fase inicial de escolarização, costumo dedicar um tempo para observá-lo de perto. Tento ir para a mente dele, lendo os sinais que ele me dá sobre cada novidade que é apresentada a ele, quais são os primeiros sinais corporais que ele utiliza para dizer o que sente a respeito de tudo aquilo.

Essa é a grande diferença, alcançada com o tempo, entre um treinador comum, ou um “horseman”, praticante da linguagem natural do cavalo.

Usar o instinto, a intuição, para ver o mundo do ponto de vista do cavalo e não do seu próprio, pessoal, dominante, preso a prazo, a relógio.

Vai começar a ensinar um cavalo? O tempo é o de cada cavalo e não o seu próprio tempo.

É essa uma das chaves que nos poupa e ao cavalo de cometermos erros básicos que nos levam a um caminho de confrontação desnecessária. E a que tempo eu me refiro? Ao tempo que cada cavalo precisa para compreender o que está sendo solicitado. E como ele compreende? Do ponto de vista da sua segurança. Ele precisa sentir que pode confiar, que não está se metendo em uma enrascada. Precisa confiar no treinador

Tudo porque falhar no inicio, na leitura do Cavalo, nos leva a ações que chegam em ruas sem saída, com ele. Ai, tem de retornar e o prejuízo começa em vários sentidos.

Quando não reconhece isso, o treinador que leu errado, confunde auto preservação e necessidade de sentir-se seguro que o Cavalo manifestou, com teimosia, com desafio, com malacarice e para esses, castigo ou punição.

Justamente aí começam os problemas com diversos cavalos que não explodem todo seu potencial, que não reagem bem ao treino, que não puderam ser francos e que foram na compreensão deles, agredidos sem razão lá atrás.

O treinador de então, confirmou na mente dele, ao errar a leitura nos primeiros dias, que somos sim predadores, perigosos, que nossa convivência é dolorosa e o vivente então mata em vida todo dia um pouco o espirito daquele cavalo.

Isso não é conto de fadas e nem frescura, falando bom português.

Há pesquisas realizadas em Universidades da França sobre comportamento, emoção, memória, capacidade de associar pessoas, cheiros, a situações boas ou ruins que o ser Cavalo têm e nós ao longo de décadas nem sabíamos como era.

Quando um cavalo não atende uma solicitação, feita de baixo ou montado, Você já parou para se perguntar se aquilo já foi ensinado antes? Um cavalo não responde de acordo com o esperado porque ele pode não saber fazer, porque não teve tempo, ou porque o pedido foi confuso. Ou ainda porque a energia do treinador era ruim, cheia de adrenalina, dominância, raiva da sua impotência em fazer ele compreender e aí ele castiga e desconta no cavalo.

Agressões, chicotadas, dor, sempre confirmam a pior impressão dele sobre nós:  a de que somos uma ameaça dolorosa, e o bom treinador nunca deve sentir-se desafiado pelo cavalo. Não se deve querer ensinar algo, deve-se permitir que ele aprenda, no tempo dele e com base em confiança e em saber aliviar a pressão na hora exata, pois eles aprendem no alívio da pressão.

Isso é básico e é onde vejo com certa tristeza, treinadores experientes, ainda querendo quebrar o cavalo, tirar a boca, chicotear, porque sentiram-se desafiados . Observe neste vídeo as lesões que chicotadas na região do vazio causam, acessando o link ou copiando e colando no seu navegador; https://youtu.be/PMfcc0hzGMU . A pele do cavalo é mais fina e com muito mais terminações nervosas (que transmitem a sensação de dor ao cérebro) do que a nossa. Além de que chicotear um cavalo que está perdido no trabalho é também uma covardia.

Então o Cavalo, que é predado na natureza, que é comida para os outros animais, quer o quê?

Quer sossego, quer segurança, quer poder confiar e aí revelar-se um de nossos melhores parceiros milenares, no esporte, no trabalho, no lazer, na vida em geral.

E é nossa responsabilidade saber de tudo isso e agir com ele desse ponto de vista.

O cavalo precisa que nossa aproximação, nosso contato, nossas ações façam sentido na mente dele desse ponto de vista;

– “ Ei, isso que você está trazendo para colocar em mim, é dolorido? É perigoso? Vai me colocar em risco?”

Ou então:

– Amigo, posso te chamar assim? Esse ferro, essas coisas que tu utiliza para me chinchar as costelas são mesmo pra ser usadas desse modo? Não dá pra fazer de outra forma, por exemplo, você me explica certinho na minha linguagem o que quer e confie que eu vou fazer meu melhor”…

Você já imaginou esse diálogo entre o treinador, ginete e seu cavalo, nas primeiras sessões de doma, ou escolarização, como chamamos hoje.

Pois saiba que é exatamente essa a abordagem que faz sentido para eles, só que é claro, sem palavras, mas na linguagem corporal.

Você se aproxima, ele se encolhe, encrispa o pescoço, arrepia pelo, arregala olhos, mostra o branco dos olhos, comprime os beiços, …. o que você faz?

-ah amarro bem curto, jogo as tralhas em cima e vamos pro embate….

Não precisa ser assim.

Não temos duas chances de causar uma primeira boa impressão.

Converse o cavalo, chegue-se sem olhar nos olhos, ombros baixos, relaxado, toque ele de lado, na tala do pescoço, relaxe ele, comunique com seu cheiro sem a adrenalina, (que é o mesmo cheiro do predador antes do ataque), que você está lá para começar uma nova fase com ele.

O potranco, como uma criança, está saindo do jardim da infância dos potros, para ser alfabetizado, e você lembra do primeiro dia na escola? O que você esperava, o que você sentia quando a mãe ou o pai te deixou naquele local estranho?

Cavalos sentem mais ou menos o mesmo, só que pior, porque tem medo de dor e de morrer.

Então todo caminho do aprendizado, quando feito na linguagem dele, no tempo dele, sem sofrimento à toa, é um caminho que ele faz mais feliz, sai da baia sabendo que bom, vou trabalhar com o parceiro que permite que eu aprenda.

Do primeiro contato, ao redondel, ao piquete, ao trabalho de chão, a construção de músculos na nuca e pescoço, a conformação da boca, antes de ir para cima, cimentam uma base de confiança e quando precisar pedir, ele já terá equipamentos físicos para responder sem sentir dor e vai fazer melhor.

Namastê

Quando vamos ensinar algo novo, ler, o cavalo, sentir o cavalo, pedir e quando ele fizer menção de responder, aliviar a pressão do pedido e confirmar a ele, sim é isso que eu quero.

O certo deve ficar fácil e o errado difícil, isso do ponto de vista do cavalo, significa, se escolheu errado ou não compreendeu o que pedi, volto à etapa anterior, ensino de novo, repito, e sempre termino o treino com algo que ele já soube fazer e fez bem, ah e agradeço e cumprimento ele com afagos firmes no pescoço cada resposta correta, isso vale mais que as tais guloseimas que não devem ser oferecidas, porque ele não associa o presente a ter feito certo, essa não é linguagem dele. A linguagem dele é pressão e alívio e ele aprende quando aliviamos e aí dizemos, é isso que pedi a você fazer.

RECONHECER QUE CADA CAVALO É UM SER ÚNICO E DIFERENCIADO

Hoje nesse novo encontro com Você, começo destacando que um bom manejo da criação, com as boas práticas do Horsemanship (a compreensão da Natureza do Cavalo e a comunicação com eles do ponto de vista e no tempo de cada cavalo), ajudarão a amplificar as boas qualidades do seu companheiro de jornada, reduzir respostas de fuga e medo e tornar o cavalo ainda mais acessível a um número crescente de pessoas que amam esses seres especiais.
Além da lida de campo, da preparação para as provas de freio, laço comprido, apartação, concursos de marcha, provas funcionais, onde reside um verdadeiro campo de testes de criadores, treinadores, escolarizadores (domadores), o cavalo, também pode ser colocado a serviço de pessoas que os utilizarão como o Cavalo de lazer da família.
É nesse sentido, que destaco – desde as primeiras sessões de escolarização, feitas do chão, seja para cabrestear, trabalhar na guia, e formar a boca e a nuca, desde o trabalho de base, que o treinador encarregado dessa escolarização, da apresentação a cada dia  de uma novidade na vida do Cavalo, – deve reeducar seu poder de observação, o chamado “feeling”, a capacidade desejada de sentir o mundo e ler as novidades do ponto de vista do Cavalo – que estes profissionais tem de refinar essa leitura partindo do reconhecimento de que não existe regra fechada, não existe a técnica ideal, antes de tudo, existe o reconhecimento de que cada Cavalo é único, tem sua história, sua herança genética, comportamental, tem seu tempo próprio de responder, de sentir que pode confiar na gente e assim fazer a escolha que esperamos que ele faça.

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Quero dizer com isso, que temos sim um planejamento geral para cada passo da “doma”, mas o tempo para isso acontecer passa e muito pela realidade de cada cavalo, que não deve ser castigado, agredido por não responder no tempo esperado.
E se ele não responde, pode ser porque não entendeu o pedido, não lhe foi dado o tempo para confirmar a resposta, (através do alivio da pressão), ou lhe foram pedidas as coisas de modo contraditório, a linguagem deles é essencialmente corporal e quantas vezes vemos o peão pedir uma coisa com as pernas e outra diferente com as mãos e o corpo?
O que dá certo com um cavalo, nem sempre será repetido com outro no mesmo tempo e com a mesma eficiência. Não reconheço truques, atalhos e corretivos que na maior parte dos casos o Cavalo não sabe porque está levando.
Acredito na dedicação, no trabalho abnegado, no amor pelo Cavalo, como regra de ouro para obter as respostas que esperamos. Assim faremos cavalos confiáveis, cheios de energia e ao mesmo tempo amorosos com as pessoas, das quais eles não precisarão temer ou fugir.

COMO BUSCAR O EQUILIBRIO FÍSICO E MENTAL DO CAVALO

Poder perceber essa condição no Cavalo é consequência natural de nosso compromisso de ver o mundo do ponto de vista do Cavalo, o exercício do “feeling”, uma das bases do bom relacionamento com ele.

Se eu não estiver preocupado em como ele está quando o tiramos da baia ou quando o pegamos no campo para trabalhar, e se para mim tanto faz esse estado mental do Cavalo, a chance de criar problemas para ele, principalmente na fase de doma, é muito maior.
Quantas vezes observo treinadores e donos de cavalos agirem como se estivessem acionando um carro, ou moto, como se o cavalo não sentisse nada, não pudesse estar em um dia ruim, ou ter ocorrido alguma coisa que alterasse o estado geral dele.
Nesses casos, o cavalo sai da baia encrispado, com o pescoço contraído, olhos arregalados, no limite de uma “faísca” para ele explodir em fuga daquilo tudo.
Ou sai cabisbaixo, já esperando pelo pior e sem vontade ou sem energia.
Nesses momentos que um bom treinador, um bom tratador faz a diferença. Não é porque temos nosso programa a seguir, que iremos adiante custe o que custar.

PARAR E OBSERVAR TUDO EM TORNO DELE E ELE EM ESPECIAL

Cavalos, já se sabe, sofrem de indisposições (mesmo sem estar caracterizada uma cólica), podem sim começar o dia mal … (mal estar, mal humor, dor, cansados mentalmente, estressados fisicamente), enfim um bom número de situações que se não forem bem identificadas a tempo, podem agravar um problema, criar uma resistência que pode terminar em conflito.

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Na abordagem baseada no “horsemanship”, temos que nos educar a observar sempre o cavalo de um modo integrado, “holístico”, isto é ver que o Cavalo não é apenas a parte física, tem a mental e mesmo espiritual, como nós humanos.

Não é difícil entender que depois de uma prova, de uma viagem, de um treinamento estafante, a condição geral da baia, do lugar, um trato que não fez bem, incômodos causados por moscas em excesso, irritação, fazem o dia seguinte deles tão complicado como para nós.

Então o cuidado integral, nos obriga a ler o ambiente, a ler a situação geral das baias, os outros animais, tentar ver se não aconteceu algo durante a noite que os agitou mais que o normal, e desse modo, poder propor ao Cavalo, uma atividade distencionante, que seja uma distração mental e uma atividade física leve.

Em alguns haras ou Ranchos ou cabanhas estruturadas depois dessas situações tem um ducha, uma hidromassagem dentro de um tanque, mas em qualquer estrutura, ao percebermos uma alteração no estado do Cavalo, seja de que tipo for, podemos alterar o programa de treino daquele dia e fazer uma saída mesmo desencilhado até a beira de um riacho, um tempo de pastejo a seu lado, onde acontece também uma comunicação baseada em respeito e confiança entre eles e nós, naquela linha do “tentar ver o mundo como eles”.

NA PRÁTICA

Criar e treinar um Cavalo exige trabalho, e é nossa responsabilidade criar um ambiente com equilíbrio entre nutrição e treinamento, hospedá-lo com higiene acima de tudo,  conforto térmico, cama boa sem pó e seca, com espaço mínimo de 3 x 3,30m, se possível com contato visual e ou físico relativo, com seus vizinhos. Essa abordagem considera-o como um todo, físico e mental.
O principal é saber qual é o comportamento normal do cavalo, para poder identificar alguma alteração física ou mental.
Assim, em repouso e em um dia em que ele esteja mostrando sua atenção, vitalidade, meça e anote os batimentos do coração por minuto, a frequência da respiração, anote sempre a média de vezes que ele defeca durante a noite, veja a qualidade e consistência, a umidade (brilho) dessas fezes, porque esses todos são sinais de que ele está fisicamente bem. Faça um controle regular.
Assim, quando ele demonstrar uma mudança no seu estado de ânimo, comece por medir todos esses indicadores e compare com suas anotações

UM ROTEIRO PARA SUAS OBSERVAÇÕES

Batimento cardíaco: O coração do cavalo bate 35 a 40 vezes por minuto. Em exercício, como ocorre conosco, a pulsação pode mesmo chegar aos 180 batimentos por minuto. A questão é avaliar após o treino quanto tempo ele demora para retornar ao normal.
Mas se em repouso, ele apresentar, por exemplo, uma frequência de mais de 60 batimentos por minuto, ele está agitado ou em stress, por dor, ou outro motivo psicológico. Onde é mais fácil acessar para verificar essa pulsação é na parte de baixo da cabeça, perto do maxilar, na jugular.
Temperatura: no Cavalo ela sobe normalmente até 37 a 38ºC. Um cavalo com 39 a 40ºC está com febre requer atenção. Na dúvida acione com agilidade um Veterinário.
Respiração: eles respiram entre 8 a 12 vezes por minuto, e depois do trabalho ou treino pode chegar a inspirar e expirar 16 a 18 vezes. Para observar a respiração do cavalo, conte o movimento das narinas ou da barriga. Em situações comuns, a respiração do cavalo deve ser imperceptível.
Alimentação: Deve ser controlada por questões de peso, mas para suprir as exigências de acordo com seu trabalho, época do ano, se garanhão ativo ou se égua prenhe ou lactante. Nos animais em geral e no Cavalo em especial deixar de comer é um sinal de doença, de desequilíbrio físico, dor, mal-estar. Ele nunca deixa de comer se estiver bem.
Pelagem: Os pelos do cavalo devem estar brilhantes e a pele com elasticidade. Ao escovar o cavalo, examine os pelos, se estão opacos, grudados, ou que não há descamação da pele. Se o cavalo transpira em excesso, espuma com pouco trabalho, ou se os pelos estão opacos, arrepiados, pode ser início de nutaliose, por exemplo e isso deixa ainda as mucosas esbranquiçadas e ele sem ânimo para nada.
Fezes e urina: Os tratadores são peça chave, a base de uma cabana, rancho ou haras. A primeira leitura dos sinais de saúde são eles que fazem, quando catam e viram as camas todos os dias. As fezes devem estar encorpadas e cair inteiras, rompendo-se quando tocam o solo, devem estar úmidas o que indica a boa hidratação do cavalo. A urina deve ser abundante em jatos levemente amarelados e translúcidos, nada de urina escura e cheia de muco, nesse caso deve chamar o veterinário. Verifique também a quantidade de água ingerida pelo cavalo. Água em excesso ou em menor quantidade do que as necessárias são prejudiciais.
Postura: O cavalo acusa a maioria dos seus problemas através da sua postura e da linguagem corporal, posição do pescoço, cabeça altiva, olhos vivos, orelhas atentas, caudas movendo-se. Veja se ele apoia os 4 membros no chão, examine tendões e boletos para ver se há dor, limpe e avalie as ranilhas para ver se há frieiras atrás do talão, se há podridão de casco e ranilha, se há inchaços, ou se alguma pedra se prendeu na ranilha ou entre a ferradura e a sola.
A alteração de padrão é um importante sinal de doença. Qualquer indicação que lhe pareça fora do comum deve ser informada ao veterinário.
Agitação: Pulsação e respiração aceleradas podem revelar estresse ou perturbação. Além do estado mental natural, o estresse enfraquece o sistema de autodefesa natural dele e é responsabilidade nossa mantê-lo equilibrado física e emocionalmente.
Escolarizar, treinar, competir, trabalhar com cavalos é um privilégio e uma responsabilidade para quem escolheu viver perto deles. Na visão do Horsemanship, olhamos tudo a todo momento, integrando as informações que temos com a que o Cavalo nos passa. Basta estar comprometido com ele, focando seu bem-estar e os resultados saltarão aos olhos.